Testemunho.

Helena Botelho

Candidata a Vogal do Conselho Directivo Regional do Sul da OA

As secções regionais devem promover a arquitectura?

Penso que as Secções Regionais são os órgãos mais próximos daquilo que é o seu território específico, e portanto creio que tendo conhecimento desse território, da sua especificidade e sobretudo reconhecendo o valor da sua diversidade, deverão promover ou ajudar a promover a Arquitectura nesse contexto.

No fundo, o mais importante será fazer um trabalho que permita o reconhecimento do valor destas especificidades para as poder promover. Não nos podemos esquecer que o SUL é muito diverso. Portugal é um país pequeno, mas se olharmos com atenção, percebemos que o SUL inclui a região Centro, o Alentejo, o Algarve, as ilhas dos Açores e a ilha da Madeira, territórios bastante complexos, de uma grande diversidade e com muitas particularidades. Por este motivo, é importante estudá-las e reconhecer-lhes valor, e compreender os seus fundamentos.

O Sul tem uma identidade própria, cuja especificidade deve ser significativa para a gestão e orientação da actividade da OASRS?

Acho que o SUL contém argumentos para o lançamento de um debate sobre a sua própria identidade. Este é um assunto que até agora tem sido pouco tratado. Creio que este tema é uma das diferenças da nossa candidatura a SUL em relação às outras, isto é, o objectivo de olhar para essa realidade e torná-la um elemento importante para a gestão da própria secção.

E concretamente podes dar alguns exemplo de como pode ser feito?

Em primeiro lugar é importante juntar massa crítica. É também importante ir aos sítios, e conhecer bem a arquitectura neste território. Por último é importante mobilizar os arquitectos e os agentes para a missão da OASRS, tendo presente que estas questões, que envolvem o património e a identidade, têm potencial de interesse a muito mais pessoas que não só os arquitectos.

Faz sentido a ordem divulgar arquitectos, projectos ou obras? Não estamos sempre a deixar 99% de fora?

A OASRS é antes de tudo um órgão regulador da profissão. Contudo é importante que a OASRS esteja próxima dos arquitectos, divulgando os prémios e as distinções dos membros do SUL. Consideramos também importante, no âmbito de um trabalho alargado, incluir na esfera de competências da OASRS a divulgação da singularidade de trabalhos desenvolvidos na esfera de actuação da secção regional como forma de, por exemplo, potenciar a identidade do SUL.

Faz parte do papel da ordem essa divulgação. Não só do seu património, mas também dos seus arquitectos e da sua arquitectura. Mas também acho que hoje em dia as ferramentas que existem, permitem que essa divulgação ou promoção se vá fazendo naturalmente. É fácil num portal online ter informações sobre arquitectos, dos seus projectos e obras, porque a internet e a informática estão ao nosso dispôr. Não me parece que este seja o assunto mais importante para a Ordem, porque a mesma deverá também tratar em primeiro lugar de criar condições de trabalho para os arquitectos e promover a qualidade da arquitectura. No fundo estas coisas estão todas interligadas.

Como pode a promoção da arquitectura dos territórios do SUL e ilhas de Portugal contribuir para a qualidade dos serviços de arquitectura prestados pelos arquitectos hoje?

É importante que os arquitectos percebam que o trabalho que realizam, apesar de se inserir num espectro referencial alargado e diverso, contém um sentido de continuidade que, em última análise, está associado à construção do território onde nos encontramos.

Neste sentido, é importante que nos ocupemos dos espólios dos arquitectos do SUL, que compreendamos os contornos e as bases que orientaram os dos mestres, para que a arquitectura dos mais novos possa fazer mais sentido e possa ser mais relevante no âmbito nacional e internacional.Desde sempre, que os arquitectos trabalham com referências. Se nós tivermos os nossos espólios e o nosso património construído bem tratado, bem estimado e bem recuperado, tanto mais útil será para quem trabalha hoje, como para o futuro.

Estas referências não serão só o que eventualmente se poderia chamar de uma estética do SUL, porque não me parece que essa estética do SUL exista. No entanto, este valor que podemos apurar  tem mais a ver com as respostas que os arquitectos dão localmente, com a construção de lugares qualificados, e com o reconhecimento de algumas técnicas construtivas e processos de projecto em cada território específico, por exemplo.

Deve a SRS ser a guardiã da história e da memória dos arquitectos que trabalham ou trabalharam neste território? Que critérios serão utilizados e como poderá a SRS gerir os espólios?

A Secção Regional do Sul não tem condições para ser a guardiã da história e da memória, mas tem condições para potenciar o aparecimento de uma investigação qualificada, estabelecendo protocolos ou acordos com outras entidades e com a academia, que ajudem a fazer esta recolha e promoção.

Outra coisa que nos parece importante e que está no nosso programa será prosseguir com o Centro de Documentação, que ajudará a proteger e disponibilizar os espólios como forma de estimular o conhecimento da arquitectura do SUL. No fundo, com estas linhas de acção, penso que a SRS não sendo guardiã, tem aqui um papel muito importante na mediação da protecção desta informação, estando numa posição privilegiada para o fazer.