Testemunho.

Tiago Mota

Candidato a Vice-Presidente do Conselho Directivo da Secção Regional do Sul

Conhecer para melhorar. Conhecer o quê? Melhorar o quê?

Em primeiro lugar, é importante perceber que informação tem a Ordem dos Arquitectos disponível.  Se pensarmos que a OA tem sobretudo estatísticas de entradas e saídas de membros, formações, dívidas de quotas, e pouco mais, e que tudo o resto que se conhece, acerca do carácter sociológico da profissão, é devido a um número muito reduzido de estudos de mercado feitos em pouco mais de meia dúzia de anos — apercebemo-nos como é pequena a informação sobre a nossa classe.

Há dois mandatos atrás, procurámos resumir essa informação num capítulo de um livro que desenvolvemos - ‘Arquitectura Hoje’ - num conjunto de citações seleccionadas. Com excertos por exemplo, de uma tese do arquitecto Pedro Brandão - ‘O Arquitecto e Outras Imperfeições’ - ou de um estudo sociológico de 2006, dos investigadores Manuel Villaverde Cabral e Vera Borges - ’Relatório Profissão: Arquitecto(a)’ - um dos exemplos que consideramos realmente ter conseguido perfilar aprofundadamente a profissão.

Depois disso, a OA apenas tem conseguido entender o seu mercado, em primeiro lugar pelo conjunto de estudos que o Conselho Europeu de Arquitectos tem feito, ou através de algumas teses de investigação académicas. Em 2013, o CDN vigente, pediu um estudo para a caracterização da profissão à empresa DOMP, que acabou por não ser muito conclusivo ou prático, no meu entender.

É fundamental, percebermos que todos os dias a profissão se desenvolve, e que não é com um estudo nacional de 2006, outro de 2010, e outro de 2013, que conseguimos obter maior representatividade, ou fazer uma projecção do que a OA pode ser de futuro.

Essa análise deve ser algo constante no teu entender…

Eu acredito que sim. Hoje em dia vivemos numa sociedade que promove muito a ‘transparência’ ao nível da informação. Existem naturalmente desafios, em termos de recolha dessa informação. Mas é preciso querer ir mais longe do que apenas a um tipo de informação que é aparente e superficial.

Para a OA poder posicionar-se nos próximos tempos, é fundamental que conheça melhor que ninguém a classe. Não faz sentido, por exemplo, que as câmaras municipais tenham mais informação sobre o que os arquitectos produzem, e que a OA fique alheada dessa informação. Ainda para mais, hoje em dia, existe uma mobilidade territorial praticamente ilimitada dos arquitectos, e uma diversificação do tipo de atuação daqueles que se dedicam à profissão, e isso deve ser questionado pela instituição.

A OA tem o desígnio de regular, defender e promover a profissão, mas para que possa fazer isso com qualidade tem que ser melhor espectadora da classe, e para isso tem que ter dados sobre os seus membros. Tem que se dedicar a perceber como se caracteriza a classe que representa.

Nos dias que correm, é paradoxal que estejamos disponíveis para partilhar a nossa vida pessoal nas redes sociais, e ao nível profissional, essa partilha seja considerada quase como tabu.

Nos inquéritos que a OA tenta lançar, por exemplo, o pedido de informação é considerado muitas vezes negativo ou transgressor de uma esfera mais privada dos escritórios. Ou seja, existe uma dificuldade em aceitar, que essa partilha possa ser transformada em algo positivo e de utilidade para todos.

Como é que podemos mudar essa perspectiva dos arquitectos, que a obtenção de dados possa ser entendida como invasora? 

Não é muito fácil. E sinceramente não sinto que exista uma solução clara. É preciso discutir muito bem, e sobretudo perceber o quanto estão permeáveis os arquitectos, em relação à partilha de informação.

Mas, partindo do pressuposto que os arquitectos são agentes transformadores de um mercado em constante mudança, devemos considerar que os próprios são portadores de informação útil. Por isso, deve interessar à OA recolher esses dados e experiência, e constituir um banco de dados, que em si, é um tema crítico da atualidade. E, ao assumi-lo, pode gerar um movimento positivo de interesse na partilha de informação, em prol de um benefício para todos.

A velocidade a que os projectos hoje em dia se processam; o volume de negócios privados ou públicos que se realizam; a variedade de actuação profissional; e o valor que os arquitectos conseguem ou não realmente imputar ao património — são tudo dados que à OA deve interessar. Até ao momento não houve uma posição suficientemente clara sobre esta matéria, para que a instituição se possa definir melhor.

No entanto, os desafios em volta da informação são imensos. Como é que se analisa esta informação? Como se captura? Que curadoria podemos fazer? Qual o nível de partilha da informação? Tudo isto são questões muito actuais, e que deviam fazer parte de um nível de preocupações muito elevado da OA.

É fundamental perceber, que as questões identitárias dos arquitectos portugueses não são as mesmas dos arquitectos alemães, ou dos finlandeses. O CAE, por exemplo, tem apresentado resumos de 33 países. Mas independentemente desses estudos nos interessarem, importa como nos organizamos dentro de portas. Sem esses dados esclarecidos, continuaremos a andar às cegas.

Quanto a essa questão dos dados referentes à profissão, aparentemente já houve alguma estratégia por parte dos dois últimos mandatos para tentar obter mais conhecimento do campo de actuação dos arquitectos, e das mudanças que estão a ocorrer na nossa profissão nos últimos anos. Qual a estratégia de continuação que se procura aqui?

No mandato findo, lançamos um conjunto de ferramentas que nos podem ajudar numa parte da recolha da informação. O ‘Simulador do Custo de Obra’ é uma ferramenta que pode servir para o efeito, por exemplo. Quanto mais dados forem imputados aquela base de dados, mais verídica se torna, e maior utilidade poderá proporcionar a todos os colegas. Obviamente, sentimos que o número de parâmetros de informação pode ser aumentado, mas terá que acontecer de forma consentida por todos nós. Já a ‘Calculadora’ por exemplo, poderia operar numa recolha de informação a um nível mais interno dos escritórios. No entanto, essa recolha não foi activada, com receio que fosse erradamente entendida.

O interesse e a participação dos membros é fundamental no desenvolvimento da instituição e na história da classe. O tema dos acervos e dos espólios em arquitectura por exemplo, mais especificamente a SUL, é outro campo que merece a nossa atenção. Gostaríamos de contribuir positivamente para poder envolver os arquitectos em torno da OA. As questões identitárias só podem ser entendidas a partir do momento em que se estabeleça essa aproximação. Por termos em conta essa necessidade, pretendemos dar continuidade ao projeto do ‘Centro de Documentação’ lançado no anterior mandato da OASRS. É preciso darmos significado ao nosso DNA, e compreender o seu valor. Dessa forma, permitir-nos-á levantar a cabeça e seguir em frente.